Conto: Perdidos

10.2.17

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As pessoas se movem ao meu redor em uma confusão de braços e corpos balançando no ritmo da música. Um garçom passa derrubando bebida na minha saia rosa que tive tanto cuidado em escolher. Uma menina escorrega ao meu lado em seu salto 15, levando o copo ao chão junto consigo. Em seguida levanta e volta dançar com a mesma energia, enquanto seus amigos riem e lhe oferecem outro copo. Afinal, ver pessoas caindo por aí quando não conseguem mais sustentar o próprio corpo já é normal.

Pela milésima vez eu me pergunto porque estou aqui. Porque passo o mesmo batom vermelho todo final de semana e coloco o salto mais alto que nada me trazem senão a sensação de desconforto. Porque insisto em colocar garganta abaixo essa bebida doce enjoativa que provavelmente me fará cair como aquela garota.

Tento me movimentar para a saída e colocar os pensamentos em ordem, mas é difícil com a música que parece entrar em cada pedacinho de mim. Preenchendo por completo a minha mente, me dizendo, pela aparente alegria de todos no local, que não há melhor lugar para se estar.

O meu grupo me puxa de volta para a nossa roda. Todos sorriem, como se essa fosse a noite mais feliz de todas. Como se o amanhã não existisse. Percebo que é inútil tentar fugir. Então pego o copo que me foi oferecido, crente de que ali está a solução para todos os meus problemas. A felicidade à uma mão de distância.

Amanhã eu penso. Amanhã eu pondero. Amanhã eu me preocupo. É difícil se concentrar quando a promessa de uma noite longe de tudo o que me cerca fora dessa boate faz eu me sentir segura e confiante.

Termino o primeiro copo, enquanto deixo a música penetrar nos meus ouvidos e fluir através de mim. Lembro a mim mesma do por que estou aqui: porque é difícil pensar. É mais fácil deixar o som me embalar a noite inteira, junto com a sensação familiar de entorpecimento, fazendo eu me sentir alegre e em paz.

É tão errado assim querer a felicidade, mesmo por um curto período de tempo? Não é o que todos os jovens fazem?

Peço ao barman mais uma bebida, mas uma forte dessa vez. Deixo que desça queimando, limpando qualquer sensação de mal-estar que pudesse existir dentro de mim. Mas ainda não é o suficiente. Eu preciso me sentir inteira de novo, preenchida, completa e não paro até que essa sensação de vazio passe. Até que sinta todas as minhas dores curadas.

As luzes piscam em todas as cores ao meu redor. Novamente aquele pensamento chato insiste em tentar me fazer questionar, mas mando ele para longe. Tudo o que quero é me juntar às figuras já borradas ao meu redor, que vestem em seus rostos sorrisos radiantes, me convidando a ser feliz junto com eles.

Eu me perco em meio à multidão, desejando que a minha juventude não acabe nunca, que os problemas fora dessas paredes não me alcancem. Deixo as luzes me cegarem e a música me embalar, até o meu corpo todo ficar leve, como se fosse um feitiço. Olho para meu namorado e ele parece tão feliz quanto eu. Quanto o resto das pessoas daqui. Acredito que estamos todos enfeitiçados.

Então o resto do mundo fica negro para mim.

Acordo com esperanças de que a alegria e  a euforia, que sentia até algumas horas atrás, voltem a me preencher. Mas não voltam. A única coisa a voltar é a realidade, como um tapa na cara, acompanhada de uma enorme dor de cabeça e vergonha. O feitiço acabou.

Tento inutilmente me lembrar de qualquer acontecimento da noite anterior, mas tudo o que vejo são fragmentos distorcidos. Risadas altas e a fumaça do lugar, misturadas ao cheiro de cigarro, suor e bebida.

Escuto meu celular tocar. Já sei que é a minha melhor amiga querendo conversar sobre a festa, mas eu não quero saber. Tenho medo que ela me lembre de alguma coisa que preferia esquecer. Eu já me conheço bem o suficiente para saber que é sempre melhor ficar no escuro dos fatos, principalmente quando se referem à mim.

Ao invés de atender tomo um banho, esperando que água limpe tudo dentro de mim. Depois deito de novo ao lado do meu namorado. Ele tem uma aparência pacífica dormindo. Passo a mão por seus cabelos e ele abre os olhos sonolentos.

- Como você está? – ele pergunta.

- Um pouco perdida – respondo olhando em seus olhos, forçando um meio sorriso.

Ele sabe ao que me refiro. Sabe que há uma batalha dentro de mim entre quem sou, quem eu quero ser e quem as pessoas acham que sou. A maioria não entende do porquê parece que tentamos encontrar a felicidade em roupas bonitas, festas e bebidas. Mas eles não sabem que lá no fundo a nossa aparência é a nossa armadura. Ela nos protege, nos dá segurança, confiança, enquanto tudo dentro nós parece desmoronar. Eles não sabem que a maioria de nós só está tentando encontrar um pouco de paz e diversão, em meio à bagunça do dia-a-dia.

Lá no fundo, o que mais queremos é achar um meio de aliviar tudo o que grita dentro de nós. É saber quem somos e tentar nos encontrar. A única coisa que muda de uma pessoa para outra são os meios para fazer isso.

Aninho-me no peito do meu namorado, enquanto ele me abraça de um jeito protetor e sussurra no meu ouvido:

- Acho que estamos todos um pouco perdidos.

Esse texto foi escrito para o desafio Imagem&Palavra, do grupo Interative-se, em que deveria usar a palavra Feitiço. 

desafio

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13 comentários

  1. MENINA! TO PASMA AQUI. PERA...
    Você escreve bem demais. O cheiro, as cores, a música, as luzes. Eu senti tudo aqui, mesmo não tendo nem mexido da cadeira enquanto lia. Toda essa reflexão envolta numa balada qualquer foi linda. Não estamos todos perdidos, afinal? Tem gente que se livra da dor numa balada, outros desenhando, escrevendo, cantando, assistindo... Na verdade, mesmo que de maneiras diferentes, todo mundo, uma hora ou outra tenta se distanciar da realidade. É fácil, cômodo e parece libertador. Ruim é que no fim das contas ela sempre acaba voltando pra atormentar. E a gente tem que ser forte o suficiente pra aguentar até a próxima vez em que possamos fazer uma nova tentativa de se distanciar. É um ciclo repetitivo, mas o quê que na vida não se repete?

    Escreva mais. Escreva sempre.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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  2. Selma, muito obrigada mesmo pelo incentivo e por esse comentário maravilhoso! <3
    Fico muito feliz em saber que tenha gostado, sentido a história e entendido o que eu queria dizer com ela. Beijão!

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  3. Não sou fã de baladas, mas virei fã do texto. Achei muito interessante a maneira como abordou os questionamentos comuns aos jovens adultos da atualidade rs.

    "...há uma batalha dentro de mim entre quem sou, quem eu quero ser" - Essa sou eu

    "Acho que estamos todos um pouco perdidos." - Espero que sim.

    Parabéns pelo conto.

    Até logo,

    C.David

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  4. Muito obrigada mesmo por esse comentário! Fico super feliz em saber que gostou e se identificou com o texto. Beijão

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  5. Adorei o texto! Me senti fazendo parte dele, como se fosse uma cena de um filme. Isso é muito bom, a escrita real, verdadeira e que nos faz bem.
    Parabéns! Curtindo, seguir eu sou uma lerda e estou perdida.
    bjs
    www.simplesmenteciana.com

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  6. Oiiie!

    Ameeeei o texto! Não sou muito fã de balada, mas me identifiquei com todos os questionamentos da personagem. Ainda me sinto assim, constantemente perdida, sendo forçada a fazer coisas que não me satisfazem.

    Mas vamos de um jeitinho, lutando para encontrarmos nosso caminho! Parabeens!

    Beijos!

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  7. Oi Leatrice!
    Muito obrigada! Acho que chega um momento em que todos nos sentimos assim né?
    Beijos <3

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  8. Retipatia23/3/17 16:46

    Tinha um tempinho que eu não aparecia por aqui (shame on me!) e fiquei felizona de te ver na Interação!!! ehehe
    Que texto lindo e gostoso de ler, Kimby! Eu tô aqui lendo e, quando acabou, pensei, quero mais! Quero ler mais da vida, da nossa tentativa vã de escape. Adoro sua narrativa e como a história passou num piscar de olhos, me prendendo do início ao fim. E, porque não, foi tão verdadeira que é impossível não me identificar com tudo que está lá, já me senti vazia em situações assim e, em outras também. As vezes a gente se preenche e depois esvazia de novo... é tudo louco e deixa a gente perdido mesmo.
    xoxo

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  9. Que texto maravilhoso, chuchu! Gostei do jeito que você descreveu porque me identifiquei um pouco com a personagem do conto :) eu nunca sai para lugar nenhum, não me sinto bem bebendo ou em meio a multidões, mas sinto que tem muita coisa perdida e confusa dentro de mim.

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  10. Oi Kim, tudo bem? Seu cantinho como sempre nos surpreendendo com posts incríveis. Há textos que lemos e logo nos esquecemos. E há aqueles em que as palavras permanecem dentro de nós e nos faz refletir sobre a vida. Esse seu hoje é assim, nos faz pensar se estamos indo pelo caminho certo, se vale a pena as escolhas que fizemos no passado, se tudo poderia ser diferente, ou se iremos nos arrepender no futuro. São tantas perguntas, mas as vezes ficamos sem respostas. Será que nos encontraremos em algum momento? Beijos, Érika ^.^

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  11. Oi Érika, tudo bem sim e contigo? Muito obrigada mesmo, fico feliz em saber que gostou do post e que conseguiu refletir através dele. É exatamente isso que você disse, temos tantas perguntas, mas não temos as respostas.

    Beijos e obrigada de novo pelo comentário

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  12. Oi Lu! Muito obrigada <3 Eu fico tão feliz em saber que gostou e até se identificou. Apesar de muita gente não se identificar com o ambiente de festa do texto, acho que pelo menos uma vez na vida todo mundo se sente um pouco perdido.

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  13. Oi Rê, o importante é que você apareceu aqui para comentar ahaha
    Muito obrigada mesmo. Eu fico extremamente feliz em ver quando as pessoas gostam, se identificam com aquilo que escrevo e trocam suas vivências comigo. E às vezes me sinto exatamente como você disse: "a gente se preenche e depois esvazia de novo… "

    Beijoos

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