Considerações sobre mães e filhas (ou filhos)

by - 11.5.18


Relação mãe e filha é um negócio estranho. Não poderia descrever de outra forma. Nem descrever sobre o ponto de vista das mães, até porque não sou uma - e espero não ser por um bom tempo. Não me entendam mal. Sei que mesmo em pleno século XXI as pessoas ainda olham torto quando digo não me imaginar mãe nem em um futuro próximo, quem dirá distante. Mas claro, com meus quase 23 anos, o que sei sobre a vida? Não muito, mas o suficiente para saber que ser mãe não é para qualquer um. É o trabalho mais difícil de todos. A minha mãe que o diga. 

Se não posso falar por mim, talvez posso imaginar vagamente como deve ter sido para ela. Porém, sem nunca saber o certo. Grávida aos 21 anos, solteira, em 1995, numa sociedade não muito diferente nem distante da nossa. Perto até demais eu diria. Se na minha faixa dos 20 não tenho nem cabeça para lidar comigo, quem dirá com outro ser totalmente dependente. Acho que ser mãe exige um tanto de pulso firme mais um tanto de nervos de ferro. No bom sentido é claro. 

Toda criança enxerga as mães como uma versão da mulher maravilha. Aquela que assume mil e uma funções conforme necessário, a pessoa que aguenta qualquer coisa, a pessoa invencível, indestrutível. Aquela que manda, desmanda e se possível, diz até para o tempo quando é hora de chover e hora de fazer sol. E ao mesmo tempo que isso era incrível, vez ou outra assustava. Você sabe só pelo tom de voz e pelo nome dito completo, quando fez algo errado, quando se meteu em enrascada, quando vai ficar de castigo. 

Depois vem a adolescência. Nada muda tanto assim. Exceto que a mãe passa do papel de uma quase Deusa para a pessoa que não nos entende. Ninguém nos entende nessa fase e nem fazemos questão. É mais fácil acreditar que "a minha mãe não sabe como é", "ela nunca passou por isso". Não, a partir dos 13-14 anos nenhum adulto sabe como é, não adiantaria explicar. O mundo gira ao nosso redor e é isso. Não que seja uma fase completamente ruim. É bom questionar, é bom querer enfrentar o mundo, é bom erguer a cabeça e se impor, mesmo que seja pelo motivo mais bobo o possível. Afinal, somos "incompreendidos", quando na verdade a incompreensão está no diálogo. 

Depois vem o início da vida adulta. A pressão da faculdade, o primeiro emprego, os primeiros tapas na cara de verdade. A vida não é como imaginávamos ser. As coisas não acontecem como gostaríamos, nem quando gostaríamos. É como se o tempo encurtasse e a lista de tarefas a fazer aumentasse. Se antes você assistia filmes de adolescente sempre achando que os adultos nunca entendiam os personagens jovens, você passa a entender o lado dos adultos. O lado da mãe. E percebe que ela não é nada mais, nada menos, do que humana. Alguém que já passou por tudo isso e até mais. 

Entende todos os "nãos". Tudo aquilo que antes achava errado, agora releva. Percebe que todas as exigências na verdade te preparam para a vida que te espera a seguir. Para as vezes em que tiver que depender de si e da sua coragem. Para quando andar sozinho em uma cidade estranha.  Entende que no fundo a sua mãe queria te passar parte dessa força interior ao longo dos anos, mesmo que doa um pouco nela deixar o filho ir e conhecer o mundo.

Passamos a infância e adolescência achando que as mães cobram demais dos filhos. "Tem que ter boas notas, tem que estudar, tem que chegar em casa tal horário, não pode isso, não pode aquilo". Mas não percebemos que também cobramos demais delas. Esperamos demais delas. Esperamos alguém com habilidades e capacidades de compreensão sobre-humanas, quando são gente como a gente. Do tipo que também sente, também erra, também comete um deslize no julgamento vez ou outra. 

Alguém que talvez tenha sentido aquela pontada de desespero ao ver a barriga crescendo ainda tão jovem. Alguém que sentiu o peso de olhares julgando e dedos apontados. Alguém que também chorou. Também não sabia ao certo como as coisas aconteceram desse jeito. Como seria a vida dali para frente. Perceber que alguns planos deveriam mudar. Adaptações e concessões a serem feitas. Alguém que em algum ponto também deve ter se sentido um pouco desnorteada. Eu certamente sentiria tudo isso e muito mais. Mas claro, estou apenas supondo e imaginando. Não posso chegar nem perto de como é realmente. 

Acho que no geral, as mães cobram tanto por SE cobrarem tanto. Por perceberem que não são perfeitas e mesmo assim tentarem ser. Por tentar fazer o melhor na medida do possível e se perguntar se estão indo pelo caminho certo. O que falei no texto, várias vezes, é a mais pura verdade, acreditem ou não. Mães são mesmo humanas, no final das contas. E tá tudo bem. Tudo mais do que bem. 

Perdoem-me o título nada criativo, mas acho que deu para entender a essência do texto. Era para ser uma homenagem à todas as mamães e no final das contas, como sempre faço, se tornou algo pessoal. Mas acho que todas as mães e também filhas talvez se identifiquem com esse texto. Um feliz dia das mães e só lembrem, tá tudo bem ser humano vez ou outra.

(Imagem capa: Pexels.com)

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4 comentários

  1. Amei o texto Kimberly ❤

    Como você eu não fui mãe ainda ,mas confesso que utilmamente de vez em quando tenho impressão que meu relógio anda ligado.
    Mas vejo todo dia minha mãe comigo e com meus irmãos e posso dizer que ser mãe não é nada fácil hehe

    Beijão

    Meu mundinho quase perfeito

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    1. Oi Babi!
      Obrigada pela visita e pelo comentário <3
      Fico feliz que tenha gostado do texto
      Beijão

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  2. Que tiro foi esse Brasil? Esse texto tá maravilhosamente bem escrito e conseguiu demonstrar tudo o que sinto. Tenho 24 anos, já casada e morando longe da minha mãe, hoje eu entendo boa parte de tudo o que ela fazia ou me dizia, no fundo, ela é humana, assim como eu.
    Amei seu texto, me identifiquei.
    Beijo, www.apenasleiteepimenta.com.br

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    1. Oi Leslie! Aaaaah muito obrigada <3
      Eu fico boa parte longe de casa e acho engraçado como a gente só passa a entender melhor as coisas quando saímos.
      Beijão e obrigada pelo comentário <3

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